Queijo, frutos e biscoitos
Resveratrol, uma substância anticâncer presente em frutas e no vinho

BY MARCIO ALVAREZ-SILVA

Na oncologia, além de nutrir o paciente, os alimentos são importantes em múltiplos aspectos.

Nos últimos anos muitos trabalhos científicos têm apontado o papel de substâncias bioativas contidas nos alimentos como tendo efeitos importantes sobre a fisiologia humana. Em alguns casos essas substâncias podem ser úteis no combate a algumas doenças, essas substancias bioativas são classificadas como nutracêuticos [1].

Derramando vinho tinto em vidro

Uma dessas substâncias bioativas é o resveratrol.

O resveratrol pode ser encontrado em algumas frutas que fazem parte da dieta humana, incluindo amendoim, uvas, vinho, mirtilo, pistácios, ameixas, amoras e cramberry [2]. No entanto, o vinho tinto é a principal fonte de resveratrol. A quantidade de resveratrol no vinho tinto pode chegar a 580 μg por 100 mL da bebida [3].

Tem sido demonstrado que o uso do resveratrol tem muitos efeitos benéficos sobre a saúde. Os primeiros relatos dos efeitos bioativos do resveratrol, foram sobre seu papel na saúde cardiovascular, através de um fenômeno que foi cunhado por Renaud e Lorgeril como  "paradoxo francês" [4]. Neste trabalho, os autores observaram que, apesar de os franceses terem uma elevada ingestão de gorduras saturadas na sua dieta, apresentam uma incidência menor (cerca de 40%) de doenças coronárias do que o resto da Europa. Isto foi atribuído ao consumo regular de vinho tinto pela população francesa.

O resveratrol tem chamado atenção dos cientistas por apresentar importantes propriedades terapêuticas, incluindo: antidiabética, antialérgica, cardioprotetora, neuroprotetora, antiobesidade, anti-inflamatória, antioxidante e antienvelhecimento [5-10]. Baseado em sua extensa atividade na prevenção de doenças, o resveratrol foi classificado como sendo um importante nutracêutico [11].

 

Em 1997, Jang e colaboradores [12] demonstraram em um trabalho pioneiro que o resveratrol inibe a carcinogênese, usando um modelo experimental de câncer de pele. Esse estudo rapidamente abriu a possibilidade do resveratrol atuar como uma importante substância anticâncer. A partir desse trabalho muitas publicações demonstrando os efeitos antitumorais do resveratrol se seguiram na literatura cientifica.

 

O resveratrol é capaz de diminuir a proliferação e formação de tumores malignos in vitro e in vivo [13-15]. Os estudos comprovam que o resveratrol inibe o crescimento de células malignas em diversos tipos de câncer e leucemias, incluindo o câncer de pele, pulmão, fígado, próstata, mama, ovário, e cólon [16-24]. Inúmeras publicações científicas demonstram que o consumo regular de resveratrol pode ser usado como um importante protetor para o desenvolvimento e progressão de diversos tipos de câncer, inclusive diminuindo as metástases [25-27]. Um estudo clínico mostrou que altas doses diárias de resveratrol (até 5,0 gramas/dia) foram seguras em voluntários [28]. Portanto é possível o consumo regular de resveratrol sem efeitos adversos e, com grandes vantagens para a saúde.

 

Esses trabalhos mostram que o resveratrol pode ser um importante aliado na prevenção de várias doenças, inclusive o câncer. O consumo regular do resveratrol pode ter um importante efeito preventivo, na saúde humana.

 

Quando o tumor está presente no paciente, o resveratrol também se mostrou eficaz quando usado junto com os medicamentos na quimioterapia, apresentando efeitos importantes na melhora geral do paciente durante o tratamento. Tem sido relatado que resveratrol pode aumentar a eficácia de drogas quimioterápicas em vários modelos tumorais sem afetar ou causar danos as células normais [29]. A combinação da cisplatina com o resveratrol no
carcinoma hepatocelular teve efeitos aditivos e/ou sinérgicos que aumentaram a quimiosensibilização das células cancerosas ao quimioterápico, potencializando seu efeito para eliminar as células malignas [30]. O uso do resveratrol combinado com 5-Fluorouracil potencializou a ação deste quimioterápico em células de câncer colorretal, melhorando sua eficácia terapêutica [31]. A combinação do resveratrol com melfalano ou doxorubicina, aumentou o potencial citotóxico destes quimioterápicos em células de câncer de mama, eliminando as células malignas com uma magnitude superior aos quimioterápicos isolados [32-34]. Também foi demonstrado que o resveratrol potencializou o efeito do etoposídeo em células de câncer de pulmão [35] e que a combinação do resveratrol com a gencitabina melhora a ação deste quimioterápico em células de câncer de pâncreas [36].

 

Essas evidências mostram a possibilidade de suplementação do resveratrol com os medicamentos quimioterápicos durante o tratamento do câncer, que pode efetivamente melhorar o efeito dos medicamentos no paciente, para que se alcance o sucesso terapêutico na luta contra a doença.

 
A literatura cientifica tem mostrado que o resveratrol pode ser um importante aliado na luta contra o câncer, já que pode ser usado sistematicamente pode ajudar a prevenir a doença.


Quando a doença se instaura, o resveratrol pode ter uma importante ação quando associado ao tratamento quimioterápico, melhorando a ação dos medicamentos.


Entretanto é sempre importante ressaltar que é necessário o acompanhamento médico durante todo o processo curativo e que o paciente nunca deixe ou abandone o tratamento quimioterápico.


Não existem evidencias que comprovem que o resveratrol ou qualquer outro nutracêutico possa eliminar por si um tumor já desenvolvido no paciente, sem a ajuda dos medicamentos quimioterápicos. O que a literatura cientifica demonstra é que o resveratrol melhora a eficácia desses medicamentos no tratamento de tumores estabelecidos no paciente.


É sempre importante ressaltar que uma alimentação equilibrada e rica em vegetais, como frutas e legumes é uma importante fonte de nutracêuticos que podem ajudar a prevenir o câncer assim como diversas outras doenças.

Referências:

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3. Chedea, V.S., et al., Resveratrol: from diet to topical usage. Food & Function, 2017. 8(11): p. 3879-3892.
4. Renaud, S. and M. de Lorgeril, Wine, alcohol, platelets, and the French paradox for coronary heart disease. The Lancet, 1992. 339(8808): p. 1523-1526.
5. Baur, J.A., et al., Resveratrol improves health and survival of mice on a high-calorie diet. Nature, 2006. 444(7117): p. 337-342.
6. Xia, N., et al., Antioxidant effects of resveratrol in the cardiovascular system. British Journal of Pharmacology, 2017. 174(12): p. 1633-1646.
7. Rauf, A., et al., A comprehensive review of the health perspectives of resveratrol. Food & Function, 2017. 8(12): p. 4284-4305.
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10. Bhullar, K.S. and B.P. Hubbard, Lifespan and healthspan extension by resveratrol. Biochimica et Biophysica Acta (BBA) - Molecular Basis of Disease, 2015. 1852(6): p. 1209-1218.
11. Sauer, S. and A. Plauth, Health-beneficial nutraceuticals—myth or reality? Applied Microbiology and Biotechnology, 2017. 101(3): p. 951-961.
12. Jang, M., et al., Cancer Chemopreventive Activity of Resveratrol, a Natural Product Derived from Grapes. Science, 1997. 275(5297): p. 218-220.
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14. Saud, S.M., et al., Resveratrol prevents tumorigenesis in mouse model of Kras activated sporadic colorectal cancer by suppressing oncogenic Kras expression. Carcinogenesis, 2014. 35(12): p. 2778-2786.
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This article was published in Understanding Cancer magazine, July 12, 2019.