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Vacinas e câncer

BY MARCIO ALVAREZ-SILVA

O conceito de vacina é muito específico: são substâncias biológicas que estimulam a imunidade adquirida para uma doença particular.  São importantes armas para estimular o sistema imunológico com a produção de anticorpos contra o a doença.

Quando uma pessoa usa uma vacina ela está se protegendo ou prevenindo para evitar a doença.

Muitas vezes a vacina atenua significantemente o desenvolvimento da doença. Mesmo que a pessoa que se vacinou contrair um vírus, este não desenvolve a doença plenamente. Se a infecção ocorrer será atenuada com poucos ou nenhum sintoma. Normalmente a vacinação oferece uma proteção muito importante evitando que uma infecção viral por exemplo evolua e desenvolva um grave quadro de saúde.  

Vacinar uma criança

As vacinas salvaram milhões de vidas e ajudaram a erradicar doenças graves como a varíola no mundo. A varíola matou quase 500 milhões de pessoas só no século XX. O último caso natural da doença foi diagnosticado em outubro de 1977, o que levou a Organização Mundial de Saúde a certificar a erradicação da doença em 1980.

Esse avanço só foi conseguido graças a vacinação em massa contra o vírus da varíola.

O câncer é uma doença complexa e pode afetar vários diferentes tipos de células e tecidos. O que torna o desenvolvimento de uma única vacina contra a doença ainda muito complexo. Sabemos que o câncer não se refere a uma única doença. Estamos falando de um grande conjunto de desordens celulares que tem como característica a modificação na proliferação, infiltração e disseminação celular. Estamos falando de muitas diferentes doenças que tem como característica a alteração na proliferação celular resultando na progressão tumoral.

Infelizmente uma única vacina direcionada contra o câncer ainda não está disponível.

Os pacientes têm sempre perguntas relacionadas a essa questão. Seria possível em um futuro próximo que se desenvolvam vacinas com potencial de produzir imunidade ao câncer? Se o paciente já tiver um câncer, uma vacina seria eficaz?

Essas perguntas surgem com base nos avanços que tem havido no desenvolvimento das vacinas modernas.

Temos atualmente algumas vacinas importantes que podem ajudar a prevenir algumas formas de câncer. Não são vacinas direcionadas contra o câncer, mas seus efeitos na prevenção de algumas doenças ajudam a prevenir algumas formas de câncer.

Temos vacina contra hepatite B e contra o Papiloma vírus humano (HPV). Sabemos que a infecção crônica com o vírus da hepatite B favorece o desenvolvimento do câncer de fígado. Dos mais de 150 tipos de HPV, a International Agency for Research on Cancer (IARC) classificou 12 tipos de HPV como carcinogênicos, podendo causar câncer de colo do útero, vulva, vagina, pênis, ânus e orofaringe.

Pelo menos nestes casos, podemos considerar que a vacinação disponível atualmente pode ser uma importante medida preventiva para evitar, pelo menos o surgimento de alguns tipos de cânceres.

A medida que a ciência avança, novas estratégias para estimular o sistema imunológico com vacinas mais inteligentes são desenvolvidas. As células de defesa poder ficar muito mais resistentes a doença e até mesmo destruir tumores já estabelecidos no paciente, é a imunoterapia contra o câncer.

A imunoterapia contra o câncer é uma área onde o desenvolvimento de vacinas inteligentes está avançando. Tanto que dois cientistas que trabalham com a imunoterapia contra o câncer foram contemplados com o Prêmio Nobel de Medicina 2018: o estadunidense James Allison e o japonês Tasuku Honjo. Ambos cientistas usam substâncias biológicas para estimular o sistema imunológico. Assim as próprias células do paciente adquirem capacidade de lutar e até mesmo destruir as células cancerosas. Essa tecnologia de vacinas inteligentes é ainda muito recente, e direcionadas para alguns poucos tipos de câncer.

A boa notícia é que com esses estudos, o leque de possibilidades vai se expandir e nos próximos anos teremos a tecnologia das vacinas inteligentes mais evoluída e muito mais precisa para os diversos tipos de cânceres. Com o avanço e desenvolvimento das pesquisas científicas novos tratamentos estarão disponíveis nos próximos anos. Com isso muitos pacientes poderão ser curados.

Paradoxalmente tem havido um movimento mundial contra a vacinação. Esse movimento tem resultados trágicos, pois indivíduos não vacinados não tem capacidade imunológica de resistir às doenças, podendo ter inclusive sua forma mais severa e fatal, já que seu sistema imunológico não foi estimulado adequadamente para combater ou prevenir a doença. Os resultados podem ser fatais.

Talvez o exemplo mais lamentável desse movimento contra a vacinação seja o de Bray Payton, editora da revista digital “The Federalist”. Ela chegou a descrever em seu Twitter que a vacinação é "do demônio" durante uma campanha de imunização contra a coqueluche nos E.U.A. Bray Payton morreu aos 26 anos de gripe H1N1, agravada por um quadro de meningite em 28 de dezembro de 2018. Em ambos os casos existem vacinas que ajudam a prevenir as doenças que vitimaram Bray Payton.

O mito que vacinas fazem mal ou que até mesmo provocam doenças, são baseados exclusivamente no desconhecimento de que, o efeito de estimular o sistema imunológico pode resultar em um quadro parecido com uma infecção viral, com febre e desconforto. Entretanto isso apenas demonstra que o sistema imunológico está aprendendo e melhorando com a vacinação, respondendo ao estímulo da vacina.

A estimulação do sistema imunológico por meio da vacinação nunca pode ser confundida com uma doença.

 

As vacinas curam ou previnem as doenças, não as causam.

Muito breve teremos a disposição novas vacinas inteligente, mais eficientes e direcionadas para vários tipos de câncer.

 

Não deixemos que o mito que se tem propagado sobre as vacinas prejudique o caminho que se está pavimentando para o tratamento e cura do câncer através da imunoterapia com as vacinas inteligentes.

This article was published in Understanding Cancer magazine, April 08, 2019.